Autores vs Os Seus Livros: Uma Reflexão Sobre Marion Zimmer Bradley


[source]

Estive horas à volta da melhor maneira de começar este post, e acabei por decidir ir directa ao assunto - Marion Zimmer Bradley foi recentemente acusada de abuso sexual de menores, pela filha, Moira Greyland. Num email, partilhado com permissão no blog de Deirdre Saoirse Moen, Greyland afirmou que a mãe a abusou até aos doze anos, e que não foi a única vítima. Acrescenta ainda informações relativamente ao pai, Walter H. Breen, acusado e condenado a dez anos de prisão por abuso sexual de menores em 1992.

O meu primeiro pensamento foi para Moira Greyland, e para a coragem que demonstrou ao fazer estas acusações - espero sinceramente que daqui não resulte ainda mais sofrimento. É fácil compreender, ao ler as palavras de Greyland, o porquê de apenas ter falado sobre isto agora, e é particularmente fácil compreender o seu receio face às reacções dos fãs da sua mãe.

Marion Zimmer Bradley é, efectivamente, um nome sonante no mundo da fantasia e ficção científica. Escreveu mais livros do que consigo contar, entre eles o hiper-popular The Mists Of Avalon, preocupou-se sempre em dar um cunho feminino (e acima de tudo, feminista) às suas obras, e para ajudar à festa, escrevia bem que se fartava. Aprendi muito com os seus livros, e sempre invejei a sua linguagem, elegante e equilibrada, nunca se sobrepondo às histórias que contava. Não me considero uma fã, não li o suficiente para o ser, mas considero-me... talvez uma admiradora casual, para quem esta notícia levantou uma importante questão.

Como é que me sinto relativamente a Marion Zimmer Bradley agora?

Não fui a única a questionar-me, claramente. A internet está cheia de posts inflamados de leitores outrora fiéis que se recusam a voltar a pegar nos livros desta autora, e de respostas ligeiramente menos emotivas de quem se recusa, isso sim, a confundir um autor com a sua obra. É uma boa pergunta. Onde é que começa a escrita, e acaba o escritor? Será justo julgar a primeira à luz de uma opinião pessoal sobre o segundo?

Pessoalmente, não me vejo a pegar em qualquer livro de Marion Zimmer Bradley num futuro próximo. Em primeiro lugar, porque ainda estou a lidar com a desilusão de descobrir esta faceta de uma autora que sempre admirei; em segundo lugar, porque tenho quase a certeza que ler qualquer episódio sexual num livro de Marion Zimmer Bradley me dará flashbacks imediatos para o depoimento de Moira Greyland, e não quero ter de me sujeitar a isso.

Se a autora ainda estivesse viva, tudo isto seria de fácil solução - não voltaria a comprar livros dela, dado não ter qualquer interesse em apoiar quem comete aquele que, para mim, é bem capaz de ser o pior crime à face da terra. Não preciso de investir o meu dinheiro na carreira de pessoas que, pelo menos em parte, me repulsam. Cada vez mais, enquanto leitora e escritora, vejo os meus investimentos como uma espécie de mecenato em pequena escala. Não sou milionária, nem famosa, mas não quero investir o meu dinheiro, nem o meu tempo, nem a pouca exposição que posso proporcionar a um autor, em pessoas que não aprovo a nível pessoal. Mas Rafaela, isso quer dizer que preferes promover uma obra má de uma boa pessoa a uma obra boa de uma má pessoa? Não exactamente, caro leitor - apenas quer dizer que estou automaticamente mais inclinada a investir em alguém que admiro a nível pessoal. Posso não o fazer, pela razão já mencionada de considerar a sua obra um notável desastre, por exemplo, mas a propensão vai continuar lá, de uma maneira ou de outra.

De qualquer forma, a verdade é que Marion Zimmer Bradley faleceu em 1999, e duvido que alguém receba royalties no Além, pelo que a questão do investimento deixa de se colocar. Ou não. Jani Lee Simner, uma autora entre vários que participaram nas antologias Darkover de Marion Zimmer Bradley, já afirmou que doará a sua fatia dos lucros a uma instituição de solidariedade; numa linha similar, Victor Gollancz Ltd, editores de vários ebooks de Bradley, afirmaram igualmente que doarão os lucros das vendas dos mesmos à instituição Save The Children. Nada do que aconteceu é culpa destes indivíduos, mas fico feliz por ver que, de todo um leque de opções possíveis, incluindo a sempre confortável opção de ficar calado e não fazer nada, optaram por ser nobres.

Marion Zimmer Bradley pode estar morta, mas as suas vítimas vivem, e se há algo que me parece crucial fazer neste momento, mais do que decidir o que fazer quanto aos livros desta escritora, é utilizar esta situação como uma oportunidade para quebrar o silêncio e ter uma conversa sincera sobre o tabu que ainda é, para muitos, a violência sexual. A comunidade literária está a desempenhar o seu papel admiravelmente, se querem a minha opinião. Todo este assunto poderia ter sido abafado, enterrado bem fundo numa qualquer acção de relações públicas motivada pela preservação da memória da falecida autora, mas tal não aconteceu. As pessoas estão a falar, e estão a falar alto. Passaram-se mais de quinze anos, mas o mundo não mudou tanto que pessoas como Marion Zimmer Bradley já não existam - elas continuam aqui, por vezes nas ruas que frequentamos todos os dias, por vezes em posições de poder e prestígio, por vezes por detrás de obras de ficção que nos inspiram e motivam. Não me compete a mim dizer a alguém o que fazer relativamente às obras desta escritora, mas compete-me, enquanto leitora, admiradora, blogger, feminista, e talvez até ser humano, falar sobre isto. Compete-me denunciar a violência sexual pelo que é, independentemente de quem a perpetra, e compete-me agir em conformidade com tudo o que tenho dito e escrito neste blog sobre violência sexual.

A violência sexual não tem lugar no mundo em que quero viver - nem na ficção, nem na realidade.

E, por associação, esta velha admiração por Marion Zimmer Bradley não tem lugar no mundo em que quero viver. Já eliminei pessoas dos meus panteões pessoais por menos. Será que ainda posso admirar a sua escrita, num vácuo? Não, nem pensar, porque não acredito em vácuos ideológicos - mas vamos fingir, por um momento, que sim. Aí a resposta passa a talvez. Talvez seja possível admirar e apreciar a escrita de Marion Zimmer Bradley sem atentar aos seus crimes, mas isso leva-nos novamente à questão inicial, e à minha resposta final - não sei onde começa a escrita e acaba a escritora. Talvez a escritora não acabe, sequer. O nome dela continua na capa*, e já dizia Federico Fellini que toda a arte é autobiografia. Se tal for verdade... em que é que ficamos?

Bem, eu fico num estado de insegurança constante. Fico com medo de pegar num livro e pegar também, acidentalmente, num portal para uma mente que já não quero visitar. Não consigo ser mais sincera do que isto, caros leitores. Não me vejo a pegar em qualquer livro de Marion Zimmer Bradley num futuro próximo. Talvez nem num futuro longínquo, pois a poeira tende sempre a assentar sobre uma versão de mim ligeiramente mais implacável do que a anterior.

Talvez esta relação tenha verdadeiramente chegado ao fim - e curiosamente, isso nem me incomoda tanto quanto pensei. O que dizem vocês?

* Deixemos a polémica dos ghost writers para outro dia, ok?

0 comentários:

Enviar um comentário