Opinião: 'The American Way Of Death Revisited', Jessica Mitford



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'The American Way Of Death Revisited'
Jessica Mitford

Only the scathing wit and searching intelligence of Jessica Mitford could turn an exposé of the American funeral industry into a book that is at once deadly serious and side-splittingly funny. When first published in 1963 this landmark of investigative journalism became a runaway bestseller and resulted in legislation to protect grieving families from the unscrupulous sales practices of those in "the dismal trade".

Aqui vai um segredo: quando o mundo da ficção me falha, leio não-ficção. A vida real pode ser, afinal, muito mais interessante do que a imaginação, com a vantagem de não me obrigar a questionar o quão plausível é - se aconteceu, aconteceu, e de nada me vale questionar.

Vamos falar deste livro, então. Este livro chama-se The American Way Of Death Revisited, e foi publicado em 1999, uma versão revista de The American Way Of Death, publicado originalmente em 1963.

Neste volume, Jessica Mitford apresenta um exposé DESCOMUNAL da indústria funerária dos EUA, que, na sua opinião, se aproveita do luto dos sobreviventes para impingir bens e serviços caríssimos, e em grande parte inúteis. Fiquei chocada, para vos ser sincera. Margens de lucro de 900% na venda de caixões? Módulos pré-fabricados de betão armado, enterrados com os caixões para os “proteger”? Caixões de aço e bronze? Tanatopraxia* para manter os cadáveres bonitinhos durante dias, para as pessoas poderem ir até à capela em procissão para os ver “como eram em vida”?

* Isto é aquilo que os não-iniciados poderão conhecer como “embalsamamento”. Vocês sabem, a substituição do sangue por fluidos preservantes e afins?


Leio muitos livros estranhos, para que conste. Só este ano, já li sobre fetos flutuantes, hipsters assassinos, e mártires que deixariam qualquer swagger contemporâneo de boa aberta. Mesmo assim, este foi o livro mais surreal de todos.

Quem me conhece sabe que sou totalmente fatalista. Vamos todos morrer, filhos, e não há razão nenhuma para esse facto ter de constituir a terceira maior despesa das nossas vidas (logo a seguir à casa e ao carro, garante Mitford). Acho o culto da morte hipócrita. Acho trágico que o mundo tenha chegado a um ponto em que os cuidados básicos de um ente querido falecido têm de ser pagos a um pseudo-profissional - como se os mortos fossem de alta manutenção, ou assim. Acho lamentável que se tenha de pagar para enterrar um ser humano. Gosto de cemitérios enquanto monumentos, feliz ou infelizmente, mas não os acho sustentáveis, ou sequer de bom gosto. Desde que sei o que é a cremação que a quero para mim mesma, e só não vou para a resomação (também conhecida como cremação líquida ou biocremação, em vocabulário mais ou menos comum; ou hidrólise alcalina, em sciencespeak), porque não me parece provável que venha a aparecer em Portugal num futuro próximo.

Mas entre ser queimada ou dissolvida, sei o que prefiro. Sempre fui pessoa de água, sabem.

A verdade é que este livro me chocou completamente, não pelo seu tema (acham mesmo?), mas pelas coisas que descreve. Já sabia que havia falta de ética na indústria funerária, mas isto é um nível tão incrível que tenho dificuldades em digerir a informação. Por outro lado, este livro foi escrito há 15 anos, e muito já mudou entretanto no panorama funerário Americano. Projectos como Undertaking L.A. estão a trabalhar numa espécie de regresso às origens, em que os sobreviventes se responsabilizam pelo serviço funerário sem terem de se expor a toda uma rede de profissionais que pouco mais querem do que usar o seu luto como trampolim para

Por outro lado, este livro fez-me pensar na realidade portuguesa. Se à primeira vista me pareceu que estamos mais ou menos safos destes abusos, uma pequena pesquisa bastou para me mostrar que as multinacionais já chegaram (alguém se lembra da polémica do Morteshopping, em 2004?), que os funerais planeados (e pagos) em vida são uma realidade cada vez mais comum, e que a tanatopraxia está a ganhar terreno “por razões de saúde e higiene”. Poupem-me.

Acreditem em mim, pessoal, já estive em duas salas de autópsia, e das duas vezes me foi garantido que, ali dentro, o único risco a que estava exposta era mesmo o de poder vir a perder o meu pequeno-almoço. Existem excepções, claro, como corpos em avançado estado de decomposição, mas se vamos ser sinceros, a esses não há tanatopraxia que os valha - só mesmo um caixão fechado.

A minha conclusão, meus caros, é que temos aqui um livrinho perfeito. Arrisco-me a dizer que devia ser leitura obrigatória para todos os que vêem alguma possibilidade de vir a morrer no futuro (não necessariamente no futuro próximo, claro, nada de pressas). O meu exemplar custou 3€ em segunda mão, mas pelo que me ensinou, vale dez vezes isso. Comprem, pessoal. Recomendo.

PS - Fui recolhendo referências que me pareceram interessantes ao longo do livro, por isso aqui fica, para mim mesma e para outros que tenham algum interesse no assunto, uma lista de leituras mencionadas por Jessica Mitford:

The High Cost Of Dying, Bill Davidson (1951, in Collier's Weekly)
Can You Afford To Die, Roul Tunley (1961, in Saturday Evening Post)
What Happens To Dead Bodies, Kenneth V. Iserson (1974)
Caring For Your Own Dead, Lisa Carlson (1987)

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