Opinião: 'Mutants', Armand Marie Leroi



★ ★ ★ ★ ☆

Mutants: On the Form, Varieties and Errors of the Human Body // Armand Marie Leroi
• Publicado a 1 de Abril de 2010, pela Harper Perennial

Full of fascinating and bizarre cases of genetic mutation and irregularity, Mutants is an amazing exploration of the human form in all its beautiful and unique guises. Why are most of us born with one nose, two legs, ten fingers and twenty-four ribs – and some of us not? Why do most of us stop growing in our teens – while others just keep going? Why do some us have heads of red hair – and others no hair at all? The human genome, we are told, makes us what we are. But how? Armand Marie Leroi takes us to the extremes of human mutation -- from the grotesque to the beautiful, and often both at the same time -- to explain how we become what we are. Through the tales of long-lived Croatian dwarves, ostrich-footed Wadoma tribesmen, sex-changing French convent girls, and many more wonders of human development, Leroi has written a brilliant narrative account of our genetic grammar and people whose bodies have revealed it.

Por que é que li este livro? Boa pergunta. Provavelmente porque tenho tendência a adicionar livros à minha lista de futuras leituras no Goodreads só porque as capas me intrigam? Talvez por gostar de ignorar a minha total falta de bases (haha, bases) no que toca a genética e ler coisas ligeiramente acima do meu nível de compreensão? Yup, são essas as minhas explicações oficiais.

Mas deixem-me apresentar-vos esta besta. Leroi é professor de biologia evolutiva do desenvolvimento, e este seu livro aborda, permitam-me dizê-lo desta forma, o quão difícil é seguir o plano para o humano "perfeito".

Cada capítulo é iniciado com um caso real, e avança depois para a ciência por detrás da mutação em questão. O texto é acompanhada por fotografias e gravuras, e por momentos temi que o livro pudesse adoptar um tom desrespeitoso, ou até jocoso, face às pessoas cujas histórias de vida utiliza para ilustrar o seu palavreado genético... mas tal não aconteceu. Mutants consegue impedir-se de sujeitar o seu "elenco" ao ambiente de freakshow que os rodeou na vida real, o que me deixa particularmente satisfeita (e desiludiu outros tantos leitores por essa internet fora, mas é a vida).

Os capítulos, dez no total, abordam temas que vão desde o número de braços e pernas de cada ser humano até seu tom de pele, passando pelo tumor na hipófise que deu a Charles Byrne, o Gigante Irlandês, os seus famosos 2 metros e 30 de altura.


1 / 2

A história de Charles Byrne foi, aliás, uma das que mais me marcou em todo o livro - pela forma como o seu corpo foi tratado após a sua morte. Byrne morreu aos 22 anos, depois de ter implorado que o seu corpo fosse atirado ao mar num caixão selado, para assim escapar aos anatomistas que o queriam dissecar. John Hunter, famoso pelas suas colecções de espécimes anatómicos e pela sua total falta de escrúpulos, subornou um amigo de Byrne e comprou-lhe o corpo por uma pequena fortuna. O corpo de Byrne foi assim dissecado, e o seu esqueleto fervido e colocado em exposição no Hunterian Museum em finais do século XVIII, onde se mantém até hoje. Em 2011, a opinião pública insurgiu-se contra o Museu, exigindo que Byrne fosse retirado de exposição, mas a questão ética acabou por ser, tal como em 1783, abafada pelo valor científico do esqueleto.

Byrne pôde ser visitado, durante anos, na companhia de Caroline Crachami, uma menina de 9 anos muitas vezes considerada a pessoa mais baixa alguma vez medida; actualmente, Byrne partilha o seu espaço com Mr. Jeffs, um senhor inadequadamente identificado que viveu algures no séc. XVIII com aquilo que hoje se sabe ser fibrodisplasia ossificante progressiva - uma patologia hereditária que se caracteriza por uma ossificação gradual do corpo. Trocando isto por miúdos, o corpo da pessoa afectada acaba por "solidificar", o que culmina normalmente em insuficiência respiratória (uma vez que os pulmões são incapazes de se expandir).

Podia ficar aqui o dia todo a citar passagens do livro e a mencionar todas os casos reais mencionadas, mas vou parar por aqui, e deixar apenas duas críticas. A principal reserva que tenho em relação ao livro é, como seria de esperar, o capítulo sobre género. Leroi faz uma confusão descomunal entre órgãos genitais, género, e atracção sexual, resultando num capítulo absurdamente simplista, já para não dizer ofensivo e heteronormativo. Numa linha semelhante, achei que Leroi se refugiou um pouco na sua bolha científica ao escrever o livro, desperdiçando com isso várias oportunidades de fazer uma análise mais social das situações que descreve (as experiências de Josef Mengele em Auschwitz, por exemplo).

Gostei bastante do livro, e vou sem dúvida relê-lo no futuro - merece, mesmo com as falhas mencionadas, umas sólidas quatro estrelas.

0 comentários:

Enviar um comentário